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Temperatura ambiente

Luis Fernando Verissimo

Calor. Muito calor. Deve ser o ar condicionado. Estes hotéis modernos exageram. O calor me acordou. Isto aqui está um forno. Vou levantar e procurar o controle da temperatura. O termostato. Onde ficará o termostato? Não tem termostato. É aquecimento central. Vou telefonar para a portaria. Dizer que assim não dá, pedir para diminuírem. Qual será o número? Engraçado, o telefone só tem um botão. Sem número. Como eu faço pra ligar pra fora? Esses hotéis modernos... Espere um pouquinho. O que eu estou fazendo num hotel? Fui dormir ontem a noite na minha cama e acordo numa cama de hotel? Ou não foi ontem à noite, já se passaram dias e eu é que não me lembro? O que será que eu andei fazendo? E como vim parar aqui, neste quarto sem nenhuma decoração, sem... Meu Deus, sem janela! E sem porta!! Como é que eu entrei aqui? Como é que eu vou sair daqui? O quarto só tem uma cama e uma mesa de cabeceira com o telefone. E uma televisão. Nem um quadro na parede, nem uma paisagem. E esse calor! A televisão. Vou ligar a televisão e descobrir ao menos onde eu estou. Pronto. Reprise de Jeannie é um Gênio. Onde é que se muda o canal? Ah, ótimo, não tem como mudar de canal. O telefone. Vou apertar o botão do telefone e ver o que acontece. Alguém vai ter que atender. Alguém vai ter que me dar explicações.

- Alô.

- Alô? Sim. Olha. Para começar, o calor está terrível. Não dá para diminuir o aquecimento no quarto?

- Não, senhor. Esta é a nossa temperatura ambiente normal.

- Outra coisa: a televisão só pega um canal. Que está dando uma reprise de Jeannie é um Gênio.

- Sim, senhor. Só tem esse canal, e é sempre a mesma reprise.

- Mas... mas... Isto aqui é o inferno!

- Não, senhor. È o Purgatório. No inferno a reprise de Jeannie é um Gênio é dublada em espanhol.


AR ENCANADO

A mulher abriu a porta e deu com um homem estranho, vestindo um uniforme estranho. E com uma história mais estranha ainda. O homem não tinha certeza se estava no lugar certo, falando com a pessoa certa. Mas todas as suas pesquisas indicavam que sim. Contou que tinha sido lançado no espaço muitos e muitos anos atrás e acabara de voltar à Terra. Como seres em deslocamento pelo espaço envelhecem mais devagar, sua idade terrena deveria ser, pelos seus cálculos, uns quarenta e poucos anos, embora tivesse partido da Terra, para fugir da era glacial, há milhares de anos. E – se suas pesquisas estivessem certas – a mulher era sua descendente. Eram da mesma família.

A mulher, claro, reuniu toda a família para conhecer o homem. Não, ninguém sabia que há milhares de anos existira uma civilização na Terra capaz de construir naves espaciais e cujos vestígios tinha sido apagado pelo gelo. Tudo que existe hoje já fora inventado então, contou o homem. “Inclusive o iPod?” , quis saber um menino. Tudo. Mas era preciso esclarecer se o homem era mesmo parente, já que as pesquisas neste sentido eram naturalmente imprecisas. Ainda mais que ele tivera que apreender o português para fazê-las, pois quando partira não existia nem Portugal, quanto mais o Brasil. O sobrenome do viajante no espaço, Ombtracom, obviamente não sobrevivera àqueles milhares de anos. A família se chamava Abreu. Traços fisionômicos também não ajudavam, apesar de alguns identificarem algo de uma prima Idalina em torno da boca. Seria parente ou não? Foi quando a mulher levantou-se subitamente para procurar a origem de uma corrente de ar, explicando que toda a família tinha pavor de ar encanado, e ele gritou: “Está provado, somos parentes!”. Sua família também tinha pavor de ar encanado. Lembrava-se, inclusive, de um avô, o velho Com Ombtracom, percorrendo a casa atrás de frestas.

A confraternização foi grande e naquela noite, durante o jantar, o viajante alertou para o aquecimento global que precederia uma nova era glacial (“começou assim”) e perguntou se a família por acaso tivera alguém famoso, ou infame, ou interessante depois dele.

Afinal, milhares de anos eram milhares de anos.


Domingo, 5 de agosto de 2007.



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